COMENTÁRIOS:
FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO
22/04/2012 - 11:08 hs
Caro Thurbay, até quando vivenciaremos fatos tais e quais, que, indiscutivelmente demostram a premeditada "confusão" entre o público e o privado.
Falo isso não só com relação aos políticos, mas, sobretudo com relação aos eleitores, pois só deles e só com eles emana toda energia transformadora ou não, originária do voto.
Isto, Infelizmente, explica a força do patrimonialismo ainda renitente e resistente entre nós, onde históricamente não existiu aquela ruptura clássica entre família e Estado, e onde este último ainda é conduzido como um prolongamento da vida doméstica.
Nessa perspectiva, encarar essa realidade e ao mesmo tempo essa polaridade, é compreendê-la a partir da incompatibilidade entre a cordialidade e a democracia, entre a vida doméstica e a vida democrática. Vimos como a socialização dentro da família patriarcal gera indivíduos incapazes de distinção entre o subjetivo e o objetivo e como a visão de mundo moldada naquele ambiente carrega emocionalmente qualquer tipo de relação. Isto obstaculiza as formas de associação que se embasam em interesses objetivos e na separação entre o público e o privado. A civilidade já não é mais um símbolo de impessoalidade, cria condição de existência do político e de uma sociedade democrática.
É surpreendente a permanência, na atualidade, de ranços relativos ao patrimonialismo e da imbricação entre o público e o privado denunciados por Sérgio Buarque de Holanda na década de 30 do século XX. Em pleno século XXI, a mentalidade brasileira permanece marcada pela cordialidade e pelo “jeitinho”, como bem apontado pelos estudos do antropólogo Roberto Da Matta. Esta cordialidade – que se mantém estruturando as relações de sociabilidade dos brasileiros e define a identidade nacional – acaba impedindo que as grandes mudanças na política e na sociedade brasileira ocorram. O personalismo, a falta de ordenação e racionalização na gestão da coisa pública e a violência narcotizante são tributários daquilo que Sérgio Buarque de Holanda denominou de “moral das senzalas”, originada de uma sociedade patriarcal e escravocrata que legou a segregação e o desprezo pelo trabalho manual e que retardou a urbanização e a modernização e impediu a construção de um Estado democrático.
No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal.
O resultado, para além de uma relação frouxa com as instituições, é uma baixa politização, ou uma politização artificial. Por isso, no lugar do aval freyriano, as análises de Holanda sinalizam para a necessidade de mudança e de superação da ordem colonial. Nos termos do autor: “Enquanto perdurarem intactos e, apesar de tudo, poderosos os padrões econômicos e sociais herdados da era colonial e expressos principalmente na grande lavoura servida pelo braço escravo, as transformações mais ousadas teriam de ser superficiais e artificiosas” (Holanda, 1936/1999, p. 78). Ele aponta, ainda, dois fatores, presentes nos povos americanos, e que são contrários à democracia: a repulsa a qualquer hierarquia racional e a impossibilidade de resistência eficaz a certas influências ligadas a idéias democráticas (p. 184).
Po fim , é isso que saúda o poema de Manuel Bandeira (1973/1996, pp. 335-336):
Casa Grande & Senzala
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira
Mas com aquele forte cheiro e sabor do Norte
Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs com sinhôs.
A mania ariana
Do Oliveira Viana,
Leva aqui sua lambada
Bem puxada.
Se nos brasis abunda,
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns Octoruns
Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
&– Diz o Boas &–
É coisa que passou
Com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço,
Não está nisso
Está em causas sociais,
De higiene e outras coisas que tais
Assim pensa, assim fala
Casa Grande & Senzala
Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado evoca
E nos toca
A alma do brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!
AS BOBAGENS, AS IDIOSINCRASIAS,O PARADOXO E O TALVEZ PAROXISMO DO COMENTA´RIO Caro Thurbay,e de minha inteira responsabilidade, quando da inserção de alguns enxertos de Sergio Burauqe de holande, de Gilberto Freire e Manuel Bandeira.
Um abraço
FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
OAB/RN. 7318.
FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO
22/04/2012 - 11:06 hs
Caro Thurbay, até quando vivenciaremos fatos tais e quais, que, indiscutivelmente demostram a premeditada "confusão" entre o público e o privado.
Falo isso não só com relação aos políticos, mas, sobretudo com relação aos eleitores, pois só deles e só com eles emana toda energia transformadora ou não, originária do voto.
Isto, Infelizmente, explica a força do patrimonialismo ainda renitente e resistente entre nós, onde históricamente não existiu aquela ruptura clássica entre família e Estado, e onde este último ainda é conduzido como um prolongamento da vida doméstica.
Nessa perspectiva, encarar essa realidade e ao mesmo tempo essa polaridade, é compreendê-la a partir da incompatibilidade entre a cordialidade e a democracia, entre a vida doméstica e a vida democrática. Vimos como a socialização dentro da família patriarcal gera indivíduos incapazes de distinção entre o subjetivo e o objetivo e como a visão de mundo moldada naquele ambiente carrega emocionalmente qualquer tipo de relação. Isto obstaculiza as formas de associação que se embasam em interesses objetivos e na separação entre o público e o privado. A civilidade já não é mais um símbolo de impessoalidade, cria condição de existência do político e de uma sociedade democrática.
É surpreendente a permanência, na atualidade, de ranços relativos ao patrimonialismo e da imbricação entre o público e o privado denunciados por Sérgio Buarque de Holanda na década de 30 do século XX. Em pleno século XXI, a mentalidade brasileira permanece marcada pela cordialidade e pelo “jeitinho”, como bem apontado pelos estudos do antropólogo Roberto Da Matta. Esta cordialidade – que se mantém estruturando as relações de sociabilidade dos brasileiros e define a identidade nacional – acaba impedindo que as grandes mudanças na política e na sociedade brasileira ocorram. O personalismo, a falta de ordenação e racionalização na gestão da coisa pública e a violência narcotizante são tributários daquilo que Sérgio Buarque de Holanda denominou de “moral das senzalas”, originada de uma sociedade patriarcal e escravocrata que legou a segregação e o desprezo pelo trabalho manual e que retardou a urbanização e a modernização e impediu a construção de um Estado democrático.
No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal.
O resultado, para além de uma relação frouxa com as instituições, é uma baixa politização, ou uma politização artificial. Por isso, no lugar do aval freyriano, as análises de Holanda sinalizam para a necessidade de mudança e de superação da ordem colonial. Nos termos do autor: “Enquanto perdurarem intactos e, apesar de tudo, poderosos os padrões econômicos e sociais herdados da era colonial e expressos principalmente na grande lavoura servida pelo braço escravo, as transformações mais ousadas teriam de ser superficiais e artificiosas” (Holanda, 1936/1999, p. 78). Ele aponta, ainda, dois fatores, presentes nos povos americanos, e que são contrários à democracia: a repulsa a qualquer hierarquia racional e a impossibilidade de resistência eficaz a certas influências ligadas a idéias democráticas (p. 184).
Po fim , é isso que saúda o poema de Manuel Bandeira (1973/1996, pp. 335-336):
Casa Grande & Senzala
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira
Mas com aquele forte cheiro e sabor do Norte
Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs com sinhôs.
A mania ariana
Do Oliveira Viana,
Leva aqui sua lambada
Bem puxada.
Se nos brasis abunda,
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns Octoruns
Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
&– Diz o Boas &–
É coisa que passou
Com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço,
Não está nisso
Está em causas sociais,
De higiene e outras coisas que tais
Assim pensa, assim fala
Casa Grande & Senzala
Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado evoca
E nos toca
A alma do brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!
AS BOBAGENS, AS IDIOSINCRASIAS,O PARADOXO E O TALVEZ PAROXISMO DO COMENTA´RIO Caro Thurbay,e de minha inteira responsabilidade, quando da inserção de alguns enxertos de Sergio Burauqe de holande, de Gilberto Freire e Manuel Bandeira.
Um abraço
FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
OAB/RN. 7318.